Dogman


QUATROASSUNTOSCOLADOS

Tudo bem, tudo bem, apareci num jornal que ninguém lê, podem tirar sarro à vontade. Passando a ponte, saindo da ilha, ouvi falar que nem os portugueses donos de bancas de revista sabiam "que raios de periódico" era esse. Mas pelo menos não foi nas páginas policiais, então saí no lucro. E caso alguém não tenha adquirido seu exemplar para emoldurar, basta clicar aqui e espantar os mosquitos, digo, matar a curiosidade.

A nossa querida Ana Cláudia achou que hoje eu ia falar da morte da Dercy Gonçalves. É verdade que há uns dois ou três anos apostei,
no "Bolão Pé-na-Cova" do Cocadaboa, que ela partiria dessa pra uma melhor. Demorou, mas desencarnou. Eu já tava começando a achar que não se morre mais de velhice no Brasil. Dercy, dona Canô (mãe de Caetano), Oscar Niemeyer... onde é que nós (não) vamos parar? Só falta agora o Galvão Bueno e o Cacau Menezes passarem dos cem anos.

Terminar relacionamentos ou deixar o passado definitivamente no pretérito são coisas muito difíceis e desgastantes. Aconteceu comigo hoje. Tudo que me fazia bem e mal ao mesmo tempo, tudo que me trazia paz e me tirava o sono, tudo que me obrigava a andar pra frente e pra trás na mesma medida, coube numa sacola de supermercado. Daqui por diante, agora que a porta da entrada fechou pra balanço, só saio de casa escapulindo pela janela.

Perfume de Afrodite (veja aqui) é o mais novo blog da minha lista de favoritos. A professora Luciana, consultora deste escriba para assuntos assindéticos adversativos, escreve curto e grosso como eu gosto, casando leveza e profundidade sem exageros, com pitadas de sarcasmo romântico (se é que isso existe) e até humor. Sim, "até humor", pois todos sabemos que as mulheres podem ser divertidíssimas, mas nunca engraçadas.



E na coluna Anacrônicas especial de hoje (confira)... "o amor está no ar" novamente.

Escrito por Dogman às 13:36 [   ] [ Recomende este texto ]





BIG BANG

Ninguém me perguntou, mas eu vou contar. Na verdade, duas ou três pessoas perguntaram, sim. Como surgiu o personagem Dogman? De onde veio esse nome? Cachorrão e Dogman são a mesma pessoa? Quem matou Salomão Ayala? Eram os deuses astronautas? As questões são complexas, porém, com algumas das minhas eficazes explicações pormenorizadas (e ricamente ilustradas), até as irmãs Marisa Letícia, Marisa Orth e Lojas Marisa serão capazes de entender como tudo começou.

Mais ou menos em 1985, todos os dias à tarde, a TV Bandeirantes reprisava um desenho animado chamado "O Poderoso Cachorrão" (The Dogfather,  produzido originalmente em 1974). Obviamente, era uma sátira ao mafioso Vito Corleone, vivido por Marlon Brando no cinema, na qual um cachorro velho, gordo, bonachão e de voz rouca comandava uma gang de bandidos incapazes de cumprir as ordens do chefe.

Assim como eu, os meus amigos do primeiro ano do curso científico não perdiam nenhum episódio e, num determinado momento, cismaram de me achar parecido com o personagem do desenho. Timidamente surgiu um "Cachorrão" aqui, depois outro "Cachorrão" acolá, até que, em pouco tempo, além de quase toda a turma, alguns professores, na hora da chamada, passaram a usar o novo apelido no lugar do meu nome verdadeiro. Mais tarde, ainda no mesmo ano, durante as olimpíadas da escola, quando todas as camisetas dos alunos vinham estampadas com os respectivos nomes nas costas, a minha trazia um sonoro "Cachorrão" em letras nada discretas, garrafais e purpurinadas.

Não digo que tenha sido fácil acostumar com a alcunha canina logo de cara, mas é que aquela gozação me tornou tão popular na época, que deixei por isso mesmo. Dali até o terceiro ano (e mesmo depois, na faculdade também) não houve mais quem não se referisse a mim como o "Cachorrão" ou o "Big Dog".



Já o "Dogman" surgiu praticamente junto com a internet, no final dos anos noventa, primeiro como pseudônimo num concurso literário e, logo em seguida, como nick  em chats  e e-mails. O antigo apelido da época do colégio, apesar de legal, não era muito sonoro (e ainda tinha o "til" pra atrapalhar a minha carreira internacional), então eu me inspirei no excelente segundo disco do grupo inglês Suede, chamado "Dog Man Star" (de 1994, cujo maior hit foi The Wild Ones ), para transformar o velho Cachorrão cansado de guerra no atualíssimo e irrequieto homem-cachorro que todos conhecem, mas fingem que não viram e atravessam a rua.

Assim, comendo Bonzo pela beiradas, o personagem Dogman tomou corpo e Centrum de A
a Zinco,
 na esperança de alcançar, preferencialmente nesta encarnação, o mesmo panteão de seus bem sucedidos ancestrais, a saber: Lassie, Rin-Tin-tin, Priscila, Bóris, Capachão, Goober, Benji, Bionicão, Digby, Mutley, Freeway, Assistente de Papai Noel e até o cachorro do Roberto, que me sorriu latindo quando parei em frente ao portão.



A coluna Anacrônicas de hoje (clique aqui) não deve ser lida logo após as refeições. E como eu já havia adiantado mais ou menos, a surpresa da semana é uma entrevista minha ao caderno de variedades do jornal "Notícias do Dia", que será publicada na sexta-feira, dia 18 de julho. Não deixem de conferir, por favor, nem que seja para embrulhar peixe.

Escrito por Dogman às 09:32 [   ] [ Recomende este texto ]





OLHA QUEM (NÃO) ESTÁ PEGANDO!

De todas as gírias de mau gosto que os adolescentes e crianças maiores de idade do sexo masculino usam hoje em dia, para o meu (bom) gosto, a pior de todas é "pegar". Fulano tá pegando a beltrana!  Adivinha quem eu peguei ontem à noite, véio? Ronaldo pegou dois travestis de uma vez só!  Não dá, não dá: dói no ouvido e na alma, além de ser o cúmulo do machismo e da falta de vocabulário.

Tudo bem, já ouvi coisas igualmente horríveis, como "o cara chegou causando" e sua variante "chegou chegando". Mas chegou causando o quê? Caso, polêmica, risos, decepção, ânsia de vômito? Causar virou verbo intransitivo agora? E se chegou chegando, então chegou duas vezes? Tem dupla personalidade? Acho que ainda não "tô ligado" nas últimas novidades da regência verbal contemporânea, preciso me atualizar, mas o certo é que "pegar" não consigo aceitar. Na verdade, quando ouço, sinto vergonha de ser homem.

Algumas gírias não me incomodam, são até meio inocentes, como "tipo assim" (no lugar das vírgulas), ou engraçadinhas, como "cada um no seu quadrado" (no sentido de cada um na sua). Vá lá se for desse jeito, dou um desconto às invenções que não denigrem a imagem de ninguém. O que não é o caso de "pegar". Reparem que uma mulher comum, com qualidades ou não, de boa índole ou não, se for conquistada, seduzida, enganada ou abduzida, continuará sendo uma mulher comum. No entanto, se ela se deixar "pegar" por um marmanjo qualquer e a notícia correr, danou-se: será o bastante para ganhar fama de piranha, tamanha a ofensividade do termo.

Podem me chamar de antiquado, de ranzinza, não me importo, tenho orgulho de nunca, desde pequeno, ter me utilizado de modismos para ser igual a todo mundo. Da mesma forma que não achei "chocante" alguma coisa muito legal nos anos setenta, hoje em dia não considero que nada seja "massa" nem "o bicho". Também abomino jargões de tevê na boca do povo, eles são o indicativo mais evidente da falta de personalidade das pessoas. Ou será possível um cidadão exigir credibilidade repetindo sem parar que "tô pagano", "muita calma nessa hora" e "cada mergulho, um flash"? Na minha modesta opinião, quem é capaz de acrescentar ao seu vocabulário uma frase que ouviu num programa humorístico ou numa novela, provavelmente será capaz de seguir conselhos de apresentadoras (e papagaios) de programas femininos, acreditar em horóscopo de jornal e, nos casos mais graves, adquirir um exemplar de A arte da guerra para quem mexeu no queijo do pai rico  ou 35 segredos para chegar a lugar nenhum.

Só sei é que me recuso a "estar pegando" (no gerúndio fica pior ainda) uma mulher. Ou estou namorando ou ficando ou comendo, qualquer coisa, menos pegando. Talvez, por isso, acabe até deixando passar uma parte divertida da vida, já que os "pegadores" que conheço são homens admirados, invejados e imitados pelos repelentes de mulher da minha espécie, apesar de serem babacas incorrigíveis. Fazer o quê?

Mas eis o que eu queria contar: na festa junina da escolinha do bairro (bombando!), enquanto eu comia uma puxa-puxa encostado na barraquinha da pescaria, notei que entrava pelo portão uma linda mãe com sua filhinha. Era uma dessas mulheres que existem apenas em sonho ou no cinema, mas que, por uma bênção divina, me olhava discretamente de tempos em tempos e, segundo informações de fonte fidedigna, divorciara-se recentemente.

– Tu não vai pegar? – Perguntou o segurança da barraca do quentão.
– Olha o respeito, rapaz! Vou lá falar com ela...
– Demorô!
– Demorei nada, acabei de ter a idéia e... ah, deixa pra lá.

Aproximei-me pisando em ovos, tentando ser simpático, sobretudo com a menina, que era magrinha, branquinha, cheia de olheiras e usava um vestido caipira com um lenço na cabeça em vez de um chapéu de palha. Lancei mão de todo o meu tato e experiência de amante à moda antiga para tocar fundo o coração daquela exuberante mamãe.

– Bem que a senhora fez trazendo a menina pra se divertir... é leucemia?
– Não, vai ser carpideira na morte do boi-de-mamão.

Créu.



Por absoluta falta de tempo (e de criatividade) hoje o blog e o Guia Floripa (clique aqui) recebem o mesmo texto. Mas não temam, honoláveis dogmaníacos, ainda neste mês de julho alguma boa surpresa pode surgir. Quem viver lerá! Por enquanto, agradeço se me listarem gírias legais ou abomináveis no link  de comentários, pra que eu possa escrever a parte dois da coluna desta terça. Um grande abraço e muito thank you  pela compreensão!

Escrito por Dogman às 07:55 [   ] [ Recomende este texto ]





FIM DE CASO

Pontualmente às onze e quarenta e cinco da manhã, em frente à Ótica Paris, na região central de Florianópolis, eu esperava pela Marcinha. Combinamos de almoçar juntos mais uma vez e, quem sabe, se sobrasse tempo, mais uma vez dar uma rapidinha na quitinete que ela dividia com a irmã e três sobrinhos, a poucas quadras dali. Fazia quase meia hora que eu não comia ninguém e meu estômago já estava roncando.

Márcia Cristina (Marcinha para os íntimos; Marcião para o anão do estacionamento) me enrolava desde a época da faculdade. Eu sempre quis casar na igreja, de terno e grinalda, constituir família, ter meia dúzia de filhos que cuidassem de mim na velhice e tal, mas ela não gostava de crianças e aceitava, no máximo, juntar os trapinhos e rachar uma pizza meia calabresa, meia escarola. Em nome da paixão, resignei-me diante da situação e esperei por um milagre. Agora, dezenove anos depois, ainda não tendo arranjado coisa melhor, estava prestes a gastar meus últimos vales-refeição do mês com a mulher que me fazia de marionete, que passava "casco-de-cavalo" nas minhas unhas quando ficava entediada e que, eventualmente, me obrigava a provar suas lingeries.

Ela chegou atrasada, acompanhada do pai, meu sogro em potencial. Fiquei imaginando o que seria pior, ter um sogro como aquele (que falava "guspe", "gabine" e "degote") ou depilar o saco com um esmeril. Na hora percebi que a rapidinha de sobremesa tinha ido pro espaço. Mesmo assim sorri para não chorar.

– Lembra do meu pai, né?
– Puta-que-pariu, digo, claro, é um prazer revê-lo, senhor...
– Jacinto Leite Aquino Rêgo ao seu dispor.
– Isso, isso, senhor Jacinto... vamos bater um rango, então?

Na fila da rôtisserie,  procurei abstrair de toda a minha infelicidade a nível de existência enquanto ser humano e me concentrar nas plaquinhas com os nomes dos pratos e nas perguntas sem respostas que me acompanhavam desde a adolescência: O "ó", que som tem? Papel-paraná também é chamado assim em Santa Catarina? Que diabos é um frango à Cassiano? Pelos menos, em relação a esta última questão, descobri que um cara chamado Cassiano chega mais cedo ao restaurante e prepara o frango do jeito que bem entender.

O velho deu um prejuízo danado, comeu mais de dois quilos de comida, fora o sagu. Em frente ao caixa, destacando um por um dos tíquetes-alimentação, lamentei por ele não ter morrido no parto da filha. Eu já sabia que os cunhados e as sogras podiam ser elementos perniciosos em um relacionamento, mas vi que os sogros têm lá o seu potencial de influência negativa na vida dos casais em formação.

De volta à rua, quando passávamos novamente pela frente da Ótica Paris, na região central de Florianópolis, é que reparei que os dois palitavam os dentes simultaneamente, fazendo "cabaninha" com uma das mãos, como se fossem mímicos siameses. Aquilo foi demais pra mim, um choque tão ou mais fatal do que alguém peidar no meio de um sessenta e nove. Tratei de me despedir logo e meter a cara no trabalho em vez de ficar amamentando o pesadelo de ter uma família. Estava decidido: eu nunca mais convidaria a Marcinha pra almoçar comigo, nem que ela pagasse a conta do motel.



A coluna Anacrônicas (clique aqui) trata muito superficialmente de algumas das maiores pragas contemporâneas da vida moderna nos novos tempos recentes de hoje em dia.


Escrito por Dogman às 08:19 [   ] [ Recomende este texto ]





DE VOLTA PARA O FUTURO

Eu não aprendo mesmo, não tem jeito. Fui ao cinema pra ver "Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal". Nossa Senhora, que filme ruim! É quase tão ruim quanto "O Código Da Vinci", que continua no topo da minha lista das piores merdas já feitas na história da sétima arte. Pelo menos a companhia era especial, e foi o que salvou a noite, apesar de eu ainda achar que perdi duas horas da minha vida. Bem-feito pra mim!

Nos anos oitenta, Harrison Ford era um dos meus heróis. Lembro de ter assistido à trilogia da série na telona, depois no vídeo cassete e na televisão. Agora, de legal, sobrou apenas a trilha sonora. Steven Spielberg perdeu a mão. E o intrépido arqueólogo se transformou num velho cansado, lento e sem expressão. Pior do que ele, só a Kate Blanchett, no papel de uma militar ucraniana com poderes mediúnicos.

Algumas coisas não deviam nunca ser ressuscitadas, senão perdem o encanto. Que nem os filmes e os desenhos animados da nossa infância. Quando a gente vê de novo, muitos anos mais tarde, se sente idiota por ter gostado de personagens tão bobos, de produções tão toscas ou de histórias tão sem sentido. Foi o que me aconteceu em relação ao doutor Indiana Jones: "o cara" virou um mala... e o encanto virou decepção.



Mas não é só no cinema que isso acontece. Na vida da gente também, com os nossos pais, por exemplo. Quem aqui não achava que o seu pai era o mais forte e o mais inteligente da rua? Ou que a sua mãe era a mais bonita e a mais prendada do bairro? Bastou passar dos dezoito pra você perceber que os seus pais eram absolutamente iguais a todos os outros pais, nem melhores nem piores, cheios de defeitos e inseguranças.

No amor a teoria é a mesma. Sábado passado, no supermercado, encontrei uma menina por quem fui apaixonado na época da escola, vinte e poucos anos atrás. Ela até sorriu pra mim e tal, como nos velhos tempos, mas depois eu fiquei me perguntando: como posso ter gostando tanto dessa magricelinha sardenta? Pois um dia ela foi a mulher mais atraente e encantadora que já existiu na face da Terra.

Por isso alguns filmes, discos, desenhos, lugares e pessoas precisam ficar no passado. No caso de "Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal", foi quase como reatar com a primeira namorada e descobrir que ela se transformou numa noveleira que ouve música sertaneja e peida fora de hora. Talvez os bons momentos tenham sido bons somente nas minhas lembranças, fazer o quê? Melhor deixá-los assim.



No Guia Floripa (clique aqui) tem um texto sobre dificuldades de comunicação no dia-a-dia.

Escrito por Dogman às 08:31 [   ] [ Recomende este texto ]





IN MEMORIAM

Aconteceu no início da década de noventa. Meu quartinho alugado era de um escuro deprimente e fétido. O nome do escuro era Tonhão, e ele vinha todo quinto dia útil cobrar o valor combinado, tendo eu dinheiro para pagar ou não. Em muitas ocasiões deixei de comprar comida, a fim de garantir a integridade das minhas pregas e aplacar a incomensurável rigidez da lustrosa ira do meu senhorio. Tempos difíceis aqueles...

No jornal com que eu forrava o chão, bem debaixo do meu colchonete, havia o anúncio de um show do renomado C.C. Darling, um gaúcho que fazia covers  do americano G.G. Allin, que por sua vez era considerado o roqueiro mais porco da história da música. Retirei, então, do fundo falso da minha lata de farinha láctea Nestlé, os últimos cinco reais do seguro-desemprego e, em vez de permanecer no meu catre praticando o auto-sexo, resolvi comparecer à apresentação, que já estava para começar, no extinto Clube 15 de Outubro.

C.C. Darling, ou simplesmente Cecê, como era mais conhecido, ainda estava conservado para a sua idade. Aos 25 anos, ostentando uma cútis de lichia, ele se alimentava basicamente de salsicha empanada com Fanta uva. Naquela noite, subiu ao palco impecavelmente vestido, mas os mendigos, assíduos freqüentadores de suas exibições, se encarregaram de arrancar-lhe as roupas antes de soarem os primeiros acordes. Sua fama de cantar peladão, portanto, se mantinha imaculada na capital de todos os catarinenses do final do século passado.

Diferentemente do original (o escrotíssimo G.G. Allin, que fazia até cocô no palco), Cecê mostrava um hardcore  de segunda categoria, desafinado e lento, acompanhado de uma ex-banda gospel, cujos músicos foram recrutados na porta da Igreja do Nazareno. O mesmo Nazareno que tinha ainda uma lanchonete e um box no camelódromo municipal. Pensando melhor, o som do grupo também era um cocô.

Mas a performance de Cecê é que era um espetáculo à parte: um pouco mais magro, após ter passado seis meses na cadeia por ter tocado fogo num disco do Tim Maia na frente do Nelson Motta, ele demonstrava uma energia incomum. Batia nos roadies  até espirrar miolo e, a partir da segunda metade do bizarro espetáculo, procedia à tradicional introdução do microfone no ânus de quem arriscasse um stage dive.  Não satisfeito, escolhia um fã com mais pinta de torcedor do São Paulo e introduzia, sem piedade, um digital delay  da Boss, besuntado com leite de aveia Davene. A palhaçada só terminava quando Cecê, cagando e andando (literalmente), borrifava desodorante Avanço sobre a platéia em êxtase, enquanto a banda, com o perdão do trocadilho, debandava por causa do fedor.

C.C. Darling foi assassinado naquela mesma data, no camarim do extinto Clube 15 de Outubro, quando soltou um peido fulminante e alguém, de sacanagem, trancou a porta por fora. Lembro, como se fosse hoje, que voltei arrasado para a minha alcova, onde chorei nos ombros do Tonhão. Comovido, ele me concedeu um desconto no aluguel. E o nosso querido Cecê, o cara que fazia o falecido G.G. Alinn parecer a Deborah Blando enxagüada com amaciante Mon Bijou, permanece até agora nos corações (e nas fezes) de quem, como eu, presenciou seu derradeiro show.



No Guia Floripa (clique aqui) tem uma crônica sobre um grave crime, ainda sem solução.

Escrito por Dogman às 07:50 [   ] [ Recomende este texto ]





UM GIRASSOL DA COR DE SEU CABELO

Como bom e solidário amigo de oito braços, sem terceiras intenções, ofereço o ombro para receber as lágrimas que ela acumulou durante toda a adolescência. Sem motivo aparente, desandou a falar da vida amorosa e agora soluça incessantemente. Que decepção, parecia uma garota tão bem resolvida no nosso primeiro encontro.

Enquanto ela chora me lembro da Laika, aquela cadelinha que foi mandada pro espaço e nunca mais voltou. Cada merda que se comete com quem é indefeso, às vezes custo a acreditar. Quando eu era pequeno queria entrar pra aeronáutica. Também tinha certeza de que a mulher da minha vida seria loira. Como não se pode ter tudo, acabei deixando as asas de lado. Nem as de anjo sobraram. Passei a caminhar ao invés de voar, sempre na contramão do sentido contrário invertido.

Vem, anda comigo, nada nos prende, vamos sumir..., cantarolo baixinho, distraído, justo no momento em que ela estremece. Levo um susto e tenho vontade rir, como em 1984, num cinema 180 graus, quando a primeira namorada enfiou a língua na minha boca. Ela não tinha tatuagens nem usava Havaianas dourada nem guardava segredos. Até hoje me faz lembrar só de palavras com pê: pranto, pitanga, perfume, piorra, pastiche, paixonite. Pau, porra, punheta, prexereca. Pressentimento.

Mas é difícil permanecer romântico quando existe alguém encharcando a manga da sua camisa de flanela quadriculada, que tem um bolso do lado esquerdo e uma foto dentro, três por quatro, com um telefone anotado no verso. Ligo e proponho casamento ou compro uma bicicleta ergométrica? Outro soluço, agora sem a mínima graça. Funga, assoa; assoa, funga. Vai se recompondo a destrambelhada. Pede desculpas, jura que isso nunca mais se repetirá. Prefiro não saber, que se dane, ou melhor, que se foda.

Daqui pra frente, apenas quem me trouxer muita sorte vai poder chorar neste ombro e ainda receber flores no dia seguinte. Como a menina de olhos azuis que apertava o tubo de pasta de dente bem no meio. Coincidência ou não, meus pensamentos têm a cor do vestido que ela deixará de usar daqui a pouquinho.



Na coluna Anacrônicas (clique aqui), como não poderia deixar de ser, tem uma homenagem ao dia dos namorados. O amor é lindo, Caetano é lindo... e Pelé disse: – Love, love, love!

Escrito por Dogman às 07:50 [   ] [ Recomende este texto ]





Não sei se souberam, mas no sábado passado houve um incêndio que destruiu os servidores do Guia Floripa. A minha coluna da semana era pra estar aqui, mas, devido ao incidente, não há previsão de publicação. Como o site vai ficar fora do ar momentaneamente, aí vai o texto que deveria estar lá, em primeira mão para os queridos leitores do blog.


OS VERDADEIROS ANOS 80 (CARTA AOS JOVENS)

Caro(a) amigo(a):

Sempre que você for convidado(a) para um show ou uma festa "anos oitenta", desconfie. Desconfie muito. Fique com os dois pés atrás. Não deixe de comparecer, por favor, mas certifique-se antes se o evento vai ser uma homenagem ou um deboche, a fim de preparar adequadamente seu espírito. Os anos oitenta foram dourados para quem viveu e sensacionais para quem apenas ouviu falar. Entretanto, quase dois decênios depois do fim do melhor momento da humanidade sobre a Terra, assim como existem pessoas que passaram pela década mágica (atualmente com idade entre 32 e 42), também existem malas, digo, pessoas cuja década simplesmente passou por elas.

Repare que, nos bares e boates que você freqüenta, cada vez que se faz referência àquela época, surgem antenas com pompons nas cabeças dos convidados, óculos enormes e coloridos, plumas, paetês e, o que é pior, a banda que está no palco (normalmente fantasiada de atração circense) toca coisas como Rosana, Sidney Magal, Rita Cadillac, Menudo e RPM. Pois é meu dever alertá-lo(a) de que, apesar de divertidas, as antenas com pompons só existiam em outros planetas, os óculos gigantes eram usados somente pelo Elton John em começo de carreira e "Plumas & Paetês", mesmo tendo sido nome de novela, até hoje são meros acessórios carnavalescos. Além disso, Rosana, Sidney Magal, Rita Cadillac, Menudo e RPM foram o lixo do lixo do lixo musical das paradas de sucesso. Legais pra caramba, se você ainda não sabe, eram Plebe Rude, Nau, Finis Africae, 365, Muzak, Ira!, Zero, Inocentes, Kiko Zambianchi, Heróis da Resistência e Dulce Quental.

Quando os membros da sua família, tipo tio, tia, irmão mais velho, prima solteirona, e até os amigos dos seus pais, começarem a falar do passado nos almoços de domingo, precisamente sobre o período que vai de 1980 a 1989, você deverá ouvir algumas verdades absolutas como: "Cindy Lauper era infinitamente mais cool  do que Madonna", "mullet  era o corte de cabelo das bandas do Reino Unido e não das duplas sertanejas", "Curtindo a Vida Adoidado  foi o melhor filme já feito" ou "Jô Soares foi engraçado um dia". Caso contrário, saia da mesa rápido, antes que o(a) convençam de que a Xuxa é uma mulher talentosa, de que alguém conseguiu montar o cubo-mágico sem trapacear ou de que você nasceu de um download  e não de parto normal.

Em relação à moda dos anos oitenta, desconsidere as opiniões de quem tem menos de 30 (é gente que fala sem conhecimento de causa) ou mais de 45 (olha quem fala). Tudo que se usou estava perfeitamente enquadrado no contexto do momento, desde as camisetas com a manga dobrada e os tênis coloridos da Redley até as calças semi-baggy e os Dock Sides da Samello. O que parece horrível agora, foi objeto de desejo lá atrás. Ou você acha que bizarrices como os crocs, os saltos-plataforma, as bolsas Victor Hugo falsificadas, os mocassins com bermuda e a Ivete Sangalo resistirão até a Copa do Mundo de 2014? Oremos.

O comportamento da "geração new wave" também era peculiar. Ao contrário da sua tribo, querido(a) leitor(a), preferíamos ter oito ou dez amigos reais do que cem ou cento e vinte conhecidos virtuais. Quando alguém viajava pra longe, tinha que mandar notícias por carta e, inacreditavelmente, isso era bem mais emocionante do que receber uma mensagem pela internet. Não havia pirataria: quem não podia comprar produtos originais, não comprava e pronto, ninguém morria por esse motivo.
E toda vez que marcávamos um encontro, ai daquele(a) que não comparecesse, pois não existia ainda o telefone celular para banalizar a falta de consideração e de compromisso entre as pessoas. Acerca do respeito aos mais velhos e da falta de uns bons tapas nas crianças deste século lhe escreverei numa próxima oportunidade.

Mas não quero fazer comparações, longe disso. Sou um saudosista, provavelmente até sofra da Síndrome de Peter Pan. No entanto, entendo que cada um(a) deve viver no seu tempo, nem antes nem depois, e aproveitá-lo com prazer, mesmo sob a ilusão de que o mundo evoluiu. O que gostaria de dizer, na verdade, é que os anos oitenta são inimagináveis para você e para seus amigos ou amigas. Não há como reviver o fim do regime militar, as primeiras eleições diretas, um gol de Zico ou o Rock in Rio. É impossível reconstituir uma programação de tevê inocente, com mais conteúdo e menos pirotecnia, quando não importava absolutamente o que o povão achava ou deixava de achar. Aliás, tenho minhas dúvidas se a participação popular na mídia de hoje (dando opiniões, enviando fotos e vídeos às emissoras) não é uma praga tão ou mais grave do que os motoqueiros nas grandes cidades, os emos na entrada do Bob's, o Photoshop nas revistas masculinas ou a Festa do Peão-Boiadeiro  em Barretos.

Para encerrar, apenas reforçando, caso você não tenha prestado atenção: sempre que for convidado(a) para um show ou outro evento "anos oitenta", desconfie. Desconfie muito. Prepare-se para participar de uma grande palhaçada (a não ser que o Bozo seja o anfitrião), talvez de um baile à fantasia, menos de uma homenagem. Pode ser que, por sorte, apareça uma banda legal, que toque as melhores músicas e tal, portanto, não deixe de comparecer, mas saiba que nada (nem ninguém) vai fazê-lo(a) ter a mínima idéia do que significou a década mágica. Aqueles anos vão continuar sendo dourados para quem viveu e, apesar de inalcançáveis, sensacionais para quem, como você, apenas ouviu falar.

Um grande abraço e bom divertimento!

Escrito por Dogman às 08:29 [   ] [ Recomende este texto ]





AMOR AO ROCK

O gaúcho Adão Iturrusgarai (saiba mais) não é propriamente um cartunista engraçado. Desenha direitinho e tal, mas seu texto é fraco, muito fraco. No entanto, apesar de não ser nenhum Angeli ou Laerte, ele acerta de vez em quando, como nesta genial versão alternativa para a série "Amar é..." (da americana Kim Casali, lembram?), publicada na Folhateen em abril passado. Para quem, como eu, já foi ou ainda é rockeiro, fica quase impossível não se identificar plenamente. Divirtam-se! Ou chamem o Juca e o Hugo para formar uma dupla.





Hoje, no nosso querido Guia Floripa (clique aqui), tem uma coluna Anacrônicas muuuito doida, sobre uma história muuuito antiga, escrita de um jeito muuuito diferente e fofinho.

Escrito por Dogman às 07:58 [   ] [ Recomende este texto ]





NO MEIO DO CAMINHO...

Escritores profissionais devem sofrer muito. Pelo menos até ganharem respeito e fama, independentemente de talento, garanto que a maioria, em algum momento, passou pelo que eu, ainda um zé-ninguém, tenho passado nos últimos anos, desde que inaugurei o blog (em 2004) e, mais recentemente, desde que ganhei uma coluna semanal no Guia Floripa. É que a maioria das pessoas à minha volta, de perto ou de longe, tanto as mais íntimas quanto as menos chegadas, simplesmente não consegue separar a ficção da realidade, o personagem do autor ou a licença poética da verdade nua, crua e cheia de estrias.

Por causa das minhas crônicas e anotações, já perdi mulher, namorada, amante, ficante, pretendente, amigos e amigas. Devido às minhas idéias e aos meus comentários, em menos de quatro anos, os colegas de trabalho, conhecidos, vizinhos e prestadores de serviço cortaram relações comigo. Os parentes, os agregados, o patrão, o senhorio e até a tia do cafezinho têm me olhado com velada desconfiança.

E de nada adianta a justificativa de que um dia quero me tornar escritor de ofício, que pretendo viver de literatura, e que a inspiração vem exclusivamente da minha imaginação, de notícias de jornal, de um passado distante ou do comportamento do povo em geral. A pressão, a vigília e a cobrança são constantes. Por trás de cada parágrafo confuso ou de cada frase subjetiva publicada na grande rede, existe sempre alguém à procura de mensagens subliminares, recadinhos amorosos e revelações pessoais, entre outros segredos ocultos, propositalmente codificados.

O fato de eu escrever pela ótica de uma mulher, mesmo não sendo mulher (se é que não perceberam); de abordar o lesbianismo e a viadagem, mesmo nunca tendo cedido a outrem o meu orifício retro-furicular; de me passar por terrorista, machista, egoísta e outros "istas", mesmo sendo um dos mais modestos e perfeitos exemplares do sexo masculino contemporâneo; ou de fazer de conta que gosto de crianças, mesmo tendo que me segurar para não magoar as mães que me rodeiam; não tem o mínimo valor. Basta um senão em primeira pessoa e pronto: de promissor cronista volto a ser o cafajeste de sempre, praticamente um Jece Valadão das letras.

É claro que muita gente me entende, separa direitinho as coisas e tal. Dá até gosto de tentar seguir carreira. Tenho, por exemplo, uma leitora, também minha consultora de análise sintática e amiga particular, que nunca comenta pessoalmente os meus textos comigo, pois assim consegue manter o distanciamento necessário para uma leitura isenta, exclusivamente da obra literária, sem nenhuma influência de quem a escreve. Poetas, jornalistas, pombajiras e os que lêem desde a infância costumam, igualmente, compreender que um ser humano consiga ser vários outros sem deixar de ser ele mesmo. No entanto, esposas, namoradas, amantes, ficantes e pretendentes, via de regra, não têm o mesmo discernimento.

Meu sonho, queridos dogmaníacos, por enquanto, é maior do que eu, mas nada que uns pequenos ajustes não nos torne sob medida um para o outro. Não pretendo trocá-lo por nenhum amor nem por nenhum dinheiro nem por nenhuma aventura. E mesmo que os escritores profissionais sofram muito, creio que vale a pena sofrer (e sonhar) até me tornar um deles, ainda que isso só aconteça postumamente, em edição custeada pelos companheiros de asilo. Já decidi, em caráter irrevogável, que nada nem ninguém vai me desviar do caminho, a não ser que queira compartilhá-lo comigo.



Veja como está minha coluna hoje (clique aqui) ou acesse o Guia Floripa no menu ao lado.

Escrito por Dogman às 08:15 [   ] [ Recomende este texto ]





AUTO-AJUDA ANTIOFÍDICA

Veneno de ex-namorada (e de amiga de ex-namorada) é pior do que veneno de cobra peçonhenta. Basta aquele seu relacionamento aparentemente estável chegar ao fim depois de apenas alguns meses e pronto: prepare-se para andar com as orelhas pegando fogo dia e noite. Não importa quem terminou nem por qual motivo o romance acabou, o fato é que a maledicência já começa logo em seguida, na primeira vez que você sair sozinho para um barzinho de solteiros ou assim que convidar aquela sua ex-ficante (que está sempre disponível) para suprir a ausência da ex-amada. Nessa hora, há que se providenciar, com urgência, um patuá ou um galhinho de arruda, pois a quantidade de pragas rogadas à sua pessoa pelas conselheiras sentimentais da outrora companheira inseparável será suficiente para deixá-lo sem forças, pálido, com olheiras e, muito provavelmente, impotente.

Caso seja inevitável apaixonar-se novamente antes dos seis meses seguintes ao rompimento, procure esconder a qualquer custo o seu novo amor, senão a torrente de energia negativa, mau-agouro, calúnias, piadinhas e mexericos em geral poderá ser fatal.
Na pior das hipóteses, à boca pequena, você e seu par terão que conviver com os comentários mais maldosos (inclusive no Orkut) expelidos sem pudor pela ex-adorável jararaca e sua inseparável trupe de cascavéis onipresentes.

Se você estiver saindo com uma menina mais magra, vai ouvir o seguinte:
– Te viram ontem no cinema com aquela girafa.

Se estiver saindo com uma menina mais fofinha...
– Quem é aquela elefanta que estava no shopping contigo?

Se estiver saindo com uma guria mais nova...
– Não sabia que você era pedófilo.

Se estiver às voltas com uma moça mais velha...
– É sua tia por parte de mãe ou por parte de pai?

Se estiver saindo com uma rapariga de origem humilde...
– Bem pensado, agora não precisa mais pagar diarista.

Se estiver saindo com uma mulher bem-sucedida...
– Tá dando o golpe do baú, né?

Se estiver saindo com uma menina feiosa...
– Só assim pra você ser o mais bonito do casal.

Se estiver de caso com uma deusa de parar o trânsito...
– Conheceu na rua ou pesquisou nos classificados?

E por aí vai, sem limitação de sarcasmo, até que sua ex-namorada despeitada conheça outro cara (que as amigas aprovem, obviamente) e esqueça que você existe ou até que você abandone sua nova conquista e volte arrependido, fazendo juras de amor e reconhecendo que só ao lado dela consegue ser feliz. A tendência, em qualquer uma das situações (e em todas as outras que surgirem), é que a paz nunca mais esteja convosco, pois, como sabemos, cachorro mordido por cobra eternamente terá medo de lingüiça.



No Guia Floripa (clique aqui) tem uma coluna Anacrônicas de completa inutilidade pública.
Também sou brasileiro, mas desisto na primeira dificuldade, não quero nem saber.

Escrito por Dogman às 07:56 [   ] [ Recomende este texto ]





O PASSAGEIRO (Fragmento)

A bomba acaba de explodir, exatamente como eu tinha planejado. Com a galeria lotada desse jeito deve ter morrido gente pra cacete. Muita gente decente, decerto, mas já não me sobra tempo nem paciência pra ficar separando os bons dos inúteis. Só sinto pena dos discos. Um monte deles eu tenho em casa; outros eu pretendia comprar. Agora, com a loja destruída, vai ficar difícil achar alguns deles. Eu podia ter roubado se não estivesse com pressa. Nem sei por que não roubei, pelo menos aquele do Iggy Pop que eu gosto tanto. Sempre fui meio estúpido pra algumas coisas mesmo. Porra, pelo menos aquele! Me encosto no primeiro poste e tiro meu sanduíche do bolso. O pão está um pouco murcho, mas a fome o deixa com gosto de Big Bob. Menininhas cheias de espinhas na cara passam correndo, chorando. Nem balançam os peitinhos quando correm. Quero ver daqui a dez anos. Os policiais e os bombeiros vêm chegando depressa. De nada vai adiantar. Quando todo aquele pessoal chegar no céu já vai ter aprendido que não se deve fazer cara feia pra quem se veste mal, pra quem não tem dinheiro, pra quem não penteia os cabelos. Agora não passam de um monte de carvão-divino, um monte de merda-celestial. E esse bando de curiosos que surgiu do nada? Mereciam ir junto, todos eles. Caminho devagar, como se nada tivesse acontecido, esbarrando nas pessoas, ouvindo os gritos na multidão. Aquela menina da perfumaria até que era ajeitada. Como era mesmo o nome dela? Ana, isso mesmo. Ana tinha um namorado e nunca quis ir ao cinema comigo. Eu já me imaginava passando as mãos nas coxas dela, enfiando a língua na orelha dela, fazendo ela pegar no meu pau. Ninguém ia ver mesmo. Mas agora é tarde. Ela devia saber que não se deve recusar um convite pra ir ao cinema. Penso nela e vou pisando nos cacos de vidro espalhados pela calçada. Entro no primeiro táxi que encontro, o mais velho de todos, sento no banco de trás. Quem vai atrás não precisa puxar conversa com o motorista, vê melhor a paisagem, pode até cochilar. Mando o cara tocar pra Catedral Metropolitana. Tenho que rezar um pouco, pela alma dos inocentes. Pela alma da Ana também. E pelo disco do Iggy Pop que eu não roubei. Só não vou me confessar, isso não. Tenho nojo de padre. Da próxima vez vou botar a bomba na igreja, na hora da missa. O carro vai andando e o mundo vai passando pela janela. Eu sou apenas o passageiro, no banco de trás. Me sinto seguro aqui, por trás do vidro, vendo as pessoas correndo, indo e vindo, correndo até o final da semana, depois até o fim do mês, depois até o ano-novo. O motorista me olha pelo retrovisor. Pergunto o que houve e ele olha de novo pra frente. Vai olhar pra puta-que-te-pariu! Motorista de táxi pra mim é que nem padre. Será que tinha alguma criança lá? Eu não ia me perdoar. A não ser que fosse virar padre ou motorista de táxi depois de adulto. Se ia ser assim, tudo bem. Um dia quero ter um filho. Queria que fosse com a Ana, mas ela morreu antes de dar pra mim. O carro diminui a marcha e a Ana vai sumindo da minha cabeça. Ela podia ter ido morar comigo se quisesse, se tivesse a fim de fugir de casa, de dormir até tarde no meio da semana, de ganhar um beijo com gosto de cabo de guarda-chuva de manhã cedo. Paramos num engarrafamento, e isso me deixa nervoso. Salto do táxi, batendo a porta com toda a força. Saio andando pelo meio dos carros. O motorista me xinga. Faço de conta que não ouço e tudo bem. Não pago a corrida e ele continua vivo. Todo mundo buzina ao mesmo tempo, ninguém anda. Ajudo uma velhinha a atravessar a rua. Ela não enxerga muito bem, me dá pena. Parece tanto com a minha avó, só que um pouquinho mais corcunda. Ninguém faz bolinhos-de-chuva melhor do que a minha avó. Tenho saudade dela e dos bolinhos. Quando a velha chega do outro lado me agradece, pede a Deus que me abençoe. Digo que não foi nada. Ela nem imagina que já sou abençoado.



Sabe aqueles amigos de escola que a gente não esquece? Pois é, hoje tem Anacrônicas (clique aqui), especialmente pro Oscarzinho, pro Roney e pro Peposo, contando um acontecimento real que aconteceu mesmo em tempos idos do nosso passado de outrora.

Escrito por Dogman às 07:39 [   ] [ Recomende este texto ]





CIDINHA PASSE-PARTOUT ENTREVISTA

Não sei se contei, mas um dia desses fui entrevistado, por telefone, para um programa de rádio. Uma jornalista das antigas (que tem nome de drag queen), chamada Cidinha Passe-Partout (pronuncia-se "paspatur"), reuniu várias crianças das escolas municipais de São Sebastião, no litoral paulista, para me fazerem perguntas em seu programa matinal dedicado à família e aos bons costumes. No começo achei que estavam me confundindo com outra pessoa, mas depois descobri que um artigo meu, sobre a importância de se fazer o auto-exame do câncer de próstata, foi publicado na Folha de S. Sebastião e fez o maior sucesso entre a petizada. Por minha causa, o secretário municipal de educação baixou uma portaria proibindo os meninos de enfiarem o dedo no cu durante as aulas. Confesso que meu ego ficou inflado, ainda mais que a entrevista foi transmitida, além da rádio local, também para a Rádio Torneira (de Registro/SP), Rádio Sanduíche (de Bauru/SP), Rádio Bandeirinha (de Juiz de Fora/MG), Rádio Calculadora (de Contagem/MG) e Rádio Percal (de Lençóis Paulista/SP). Eis, então, algumas das perguntas que tive que responder em quase uma hora de sabatina.

CIDINHA - Olá, Dogman, tudo bem? Diga-nos onde você nasceu e qual é a sua idade.
DOGMAN - Alô, minha gente amiga! Eu nasci em Florianópolis mesmo, sou um autêntico "manezinho da ilha", só não me lembro mais em que ano isso aconteceu. (risos)

CARMINHA - Você tem filhos ou pretende ter?
D - Não. Não pretendo deixar descendentes nesta encarnação e, na verdade, nem gosto muito de crianças. (pausa)  Brincadeirinha, brincadeirinha! O cachorrão aqui sempre foi amigo da garotada. (risos)

SUELENZINHA - Descreva seu par romântico ideal.
D - Eu não gosto de mulheres muito bonitas. Vaidade conta, mas cultura é imprescindível. Meu par ideal deve gostar, preferencialmente, das mesmas coisas que eu, rir das mesmas piadas, ouvir as mesmas músicas, freqüentar os mesmos lugares, etc. Se houver diferenças, que ela saiba entender a importância das coisas num universo que não é o seu. E se for órfã e podre de rica, melhor ainda. (risos)

PAULINHO - Qual é a sua opinião sobre religião?
D - Sou ateu e o assunto não me interessa. Mas o que vocês devem saber, criançada, é que pessoas religiosas demais, geralmente, são malas de papelão sem alça na chuva. (risos)

PAULINHO - A política é importante para você?
D - Não. E acho um saco sair de casa pra votar a cada dois anos. (risos)

JULINHA - Qual é o seu programa de TV favorito?
D - O seriado Friends, no canal Warner.

MARIELINHA - Qual é o seu filme favorito?
D - "A Fraternidade é Vermelha", do Krzysztof Kieslowski.

SUELENZINHA - Lemos no seu blog que você não gosta da Ivete Sangalo, é verdade?
D - Verdade. (vaias)

ALEXZINHO - Qual é o seu esporte favorito para praticar? E para assistir?
D - Gosto de assistir futebol e tênis. Para praticar, nenhum, tenho mais o que fazer. (risos)

JUNINHO - Como você descreveria o seu humor? Com que freqüência você perde o humor?
D - Estável. Nunca perco o meu bom humor. E anda logo com a próxima pergunta, pô! (risos)

PAULINHO - Quando foi a última vez que você bateu, socou ou chutou alguém?
D - Em 1984 eu cobri o meu irmão do meio de porrada porque ele atirou um de meus discos preferidos pela janela. Que eu me lembre, foi a última vez... a última vez que ele mexeu nos meus discos. (risos)

MARIELINHA - Liste três adjetivos que melhor descrevem você.
D - Criativo, charmoso e modesto. (risos)

HUGUINHO - Se você pudesse ocupar algum cargo político, qual seria?
D - Secretário de Turismo. Sou louquinho pra cobrar pedágio na entrada de Florianópolis e selecionar melhor os turistas que vêm passar férias aqui. Curitibanos e argentinos não entrariam nem pagando. (risos)

JULINHA - Qual a sua realização da qual você mais se orgulha?
D - Uma vez consegui montar em meia hora um quebra-cabeça da Grow que dizia na embalagem: de 2 a 3 anos. (silêncio)

CARMINHA - Descreva o seu dia perfeito.
D - Meu dia perfeito começa depois das dez da manhã, passa por um almoço em boa companhia, por uma música do Iggy Pop, por um texto do Rubem Fonseca, por um jogo do Corinthians, por um sorriso da menina que me atende na locadora de vídeo, e termina com uma taça de sorvete, comigo usando a camiseta mais velha que tiver no guarda-roupa.

SERGINHO - Quem é seu herói e por quê?
D - É o J.D. Salinger, por ter escrito a maravilha que é "O Apanhador no Campo de Centeio" e depois se isolado da humanidade até o fim da vida, sem publicar mais nenhum livro.

ALEXZINHO - Pra que time você torce? Por que virou torcedor?
D - Pro Corinthians, óbvio. (risos)  Quando vocês não eram nem projeto de genta ainda, quando eu tinha uns seis ou sete anos, apareceu um vendedor de pôsteres na casa dos meus avós paternos. O meu avô me chamou e me mandou escolher qualquer um deles pra mandar emoldurar. Pois não é que eu escolhi o São Jorge, sem nem ter idéia de que era o santo-padroeiro do Timão? Acho que foi o cavalo branco que eu achei legal. Depois de duas semanas chegou a encomenda, numa moldura roxa, que era a minha cor preferida na época. No ano seguinte, em 1977, eu passei a torcer pelo Corinthians, quando o time foi campeão paulista depois de vinte e dois anos na fila. Hoje usamos a camisa roxa em jogos especiais, apesar de eu achar a cor horrível. (risos)

CARMINHA - Liste três coisas que você levaria para um acampamento.
D - Um livro, um baralho e chicletes de hortelã.

SUELENZINHA - Você já esteve numa praia de nudismo? Se sim, como foi?
D - Não, nunca. Tenho o pinto pequeno, morro de vergonha. (risos)

CIDINHA - Complete a frase: Minha motivação de vida é...
D - ...ferir duramente todos aqueles que já me feriram um dia.

MARIELINHA - Que tipo de pessoa você escolheria para conviver diariamente?
D - Pessoas contidas, intelectualizadas e razoavelmente organizadas.

MARIELINHA - E que tipo de pessoa você não escolheria para conviver?
D - Pessoas que falam no gerúndio, que ouvem música baiana ou que sejam muito religiosas.

HUGUINHO - O que você acha mais difícil na convivência com as pessoas?
D - As pessoas. (silêncio)

JUNINHO - Você gostaria de ficar famoso um dia? Por quê?
D - Sim, para poder influenciar positivamente a geração de vocês.

JULINHA - Você tem algum segredo?
D - Tenho, mas não posso revelar. (risos)

SERGINHO - Você já fez o auto-exame do câncer de próstata?
D - É a mesma pergunta? Já disse que não posso revelar, pô! (risos)



Na minha coluna do Guia Floripa de hoje (clique aqui) tem um texto antigo, porém, recauchutado. Reparem na foto, que vale mais do que todas as palavras.

Escrito por Dogman às 07:50 [   ] [ Recomende este texto ]





CASO ISABELA (1)
Não fui muito com a cara do casal Alexandre a Anna Jatobá. Ele é falso e ela é safada. Queridinha mesmo é a mãe biológica, Ana Oliveira, do tipo "pra casar". No começo imaginei que talvez o atual namorado da mãe, enciumado, tivesse entrado no apartamento e jogado a menina da janela, para que ela não tivesse mais vínculos com o pai. Que nada, a solução tem-se revelado previsível. Ainda assim, até o último minuto, vou torcer para que o casal seja declarado inocente. Explico: é que ontem, no Jornal do Almoço, aquele colunista obsoleto e folclórico (que usa Crocs, lembram?) disse com todas as letras que pediria demissão da Globo local se Alexandre e Anna Carolina não fossem os assassinos. Vai ser difícil a situação se reverter, mas a esperança é a última que morre, não é mesmo? Oremos.

DOIS MILHO E BUM: PADRE ABOBADO NO ESPAÇO
Não é por nada, não, mas qual é a explicação para um padre querer entrar no Guinness  por voar a maior distância preso em balões de festa? Simples: é um camelo. Devido ao mau tempo o sacerdote foi levado pelo vento do Paraná até o norte de Santa Catarina, onde desapareceu. Não duvido nada que, se o estúpido estiver vivo, vá ser tratado como herói e não como um burro sem noção, prestando-se a uma idiotice dessas.

CASO ISABELA (2)
Que o povo tenha curiosidade de saber quem matou a menina eu até entendo. Mas daí a neguinho (branquinho também) acampar na frente do apartamento do casal, chutar o carro da família, querer invadir o prédio pra linchar os suspeitos ou ir ao cemitério visitar o túmulo da criança, já é um pouco demais. Isso é que dá as pessoas não valorizarem a própria vida. Preferem se preocupar com a dos outros e até, em alguns casos, viver um drama que não é o seu. Não sei se concordam, mas o mundo seria bem melhor se cada um cuidasse dos seus problemas. Só falta agora alguém dar a idéia de beatificar a criança.

A PRIMEIRA MISSA EM FLORIANÓPOLIS
No sábado passado fui visitar a exposição do quadro "A Primeira Missa no Brasil", pintado pelo catarinense Victor Meirelles entre 1859 e 1861. A obra, que ilustrou os livros de história da minha época de escola, impressiona pelo tamanho (quase 9m²), mas decepciona pela falta de qualidade. Curiosamente, os portugueses, ao centro, são nítidos e finamente detalhados, enquanto os índios, em volta, são embaçados, nas coxas, como se fossem pintados por outra pessoa, sem o mesmo talento. Sabe-se (está nas enciclopédias) que o artista era patrocinado pela Monarquia e, portanto, não é de se duvidar que ele caprichasse na parte relativa a quem fez a encomenda e não estivesse nem aí para o povão pele-vermelha.



A PIOR TV DO MUNDO
Um programa vespertino da Band, no último feriado, estampava a seguinte manchete: "Gêmeos de Fernanda Lima são fofos" (veja aqui). Inacreditável a profundidade do texto, não? Assim como inacreditável é a grande bobagem comandada pelo Marcelo Tas, chamada CQC (Custe o que custar), que envia repórteres absolutamente sem graça para as ruas a fim de perseguir e tirar do sério pessoas famosas, do mesmo jeito que Vesgo e Ceará já fazem há anos, de forma igualmente sem graça no Pânico. E para arrematar, ainda nos embalos da série "isto é incrível", Raul Gil tem um programa (desde fevereiro!) chamado "Todo Domingo é Natal", em que suas assistentes de palco usam gorrinhos de Papai Noel e o público ganha presentes. Depois a diretoria da Band vem dizer que não entende por que a emissora investe tanto e continua amargando a pior audiência do país. Eu entendo perfeitamente.

VÔLEI FEMININO
Cara-de-pau da Fernanda Venturini querer voltar à seleção feminina de vôlei, hein? A guria admite que está velha, anuncia a aposentadoria e assim, sem mais nem menos, quando fica entediada em casa, resolve que quer jogar de novo. Bem-feito, não foi convocada.

VÔLEI MASCULINO
Pior do que final de campeonato em jogo único é o jogo único ser realizado no Rio de Janeiro, mesmo que os times finalistas sejam de Minas Gerais e Santa Catarina. Isso é coisa da Globo, o Midas ao contrário das comunicações no Brasil, tudo que ela toca vira merda.

O SEGREDO DO FIM DO MUNDO
Eu sei por que as famílias de hoje em dia são tão desunidas. A ganância do comércio foi o que sepultou aquele ritual de se almoçar aos domingos ou de se tomar um café no fim da tarde nos dias santos, com todo mundo junto, batendo papo, repetindo piadas antigas e se acotovelando à mesa. Ontem, por exemplo, os shoppings e supermercados de Florianópolis conseguiram, na justiça, uma liminar para funcionar durante o feriado, mesmo não tendo feito acordo com os sindicatos acerca da remuneração dos funcionários. Ou seja, os gananciosos, além de não darem atenção aos próprios filhos, parentes e amigos, ainda querem que seus funcionários nunca mais almocem com a família ou que não tenham tempo de levar suas crianças ao parque. E o povo vai às compras, sem imaginar que os momentos de sossego de um dia "inútil" vão lhes fazer falta muito em breve.



Não deixe de prestigiar também a minha coluna Anacrônicas no Guia Floripa (clique aqui), dessa vez falando sobre um incidente ortopédico no restrito Clube de Casais.

Escrito por Dogman às 08:01 [   ] [ Recomende este texto ]





SKAVURZKA É O CACETE!

Desafio qualquer um, leitor deste blog, a tentar cancelar uma assinatura de tevê a cabo através do atendimento telefônico da Net. É uma proeza praticamente inalcançável, minha gente amiga, tão ou mais difícil do que chegar ao topo do Everest. Não importa o motivo (e não vou revelar qual é o meu caso), seja por que você vai morar com alguém que já é assinante, por que arrumou mais um emprego à noite e ficou sem tempo de curtir a programação ou por que o plano coletivo do condomínio sai bem mais em conta, o fato é que fazer contato com o "setor de cancelamento" da referida empresa pode ser estressante como aguardar resultado de exame de gravidez, dolorido como levar um chute de surpresa no saco, cansativo como sair pela janela quando o marido resolve chegar cedo ou, ainda, pior do que tudo isso ao mesmo tempo. Durante vinte dias, aproximadamente, travei os mais surreais diálogos com as atendentes da Net, que divido, a seguir, alguns trechos com vocês.

– Pois não, senhor, em que posso estar lhe ajudando?
– Quero cancelar a minha tevê a cabo.
– Qual seria o motivo, senhor?
– Nenhum motivo, só quero cancelar.
– Sem um motivo a Net não poderá estar cancelando, senhor.
– Tá bom, é porque eu vou estar me suicidando em trinta segundos, registra aí.

– Pois não, senhor, em que posso estar lhe ajudando?
– Tentei cancelar a minha tevê a cabo ontem, mas o sistema estava fora do ar.
– Aguarde um momento, senhor.
– Rápido, por favor, senão a minha conta telefônica vai sair mais cara do que a mensalidade.
– Problemas com o Net Fone não são resolvidos por este setor, senhor.
– Não, não, eu quis dizer... nada, não, esquece.

– Pois não, senhor, em que posso estar lhe ajudando?
– Tentei cancelar a minha tevê a cabo ontem, mas não me acertei com a atendente.
– Mas qual o motivo, senhor?
– É que eu vou me mudar pra outro país, bem longe daqui.
– E qual seria o novo endereço de instalação, senhor?
– Qualquer um onde a Net não tenha cobertura, vê aí pra mim.

– Pois não, senhor, em que posso estar lhe ajudando?
– Quero cancelar a minha tevê a cabo, será que é pedir muito?
– Ah, mas eu estou vendo aqui que o senhor é um cliente muito antigo...
– E daí, qual é a vantagem?
– Nenhuma, senhor, eu apenas verifiquei que a sua assinatura é muito antiga.
– E eu por acaso te pedi pra verificar alguma coisa? Fica na tua, pô!

– Bem-vindo ao atendimento telefônico Net, para usar o menu de voz, diga: "quero falar".
– Puta-que-pariu!
– Você escolheu utilizar o menu de voz, agora diga o que deseja.
– Quero que vocês vão estar se fodendo!
– Sua ligação está sendo transferida para um de nossos consultores, por favor, aguarde.
– Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...

– Senhor, queira anotar o número do protocolo de cancelamento.
– Porra, nem acredito!
– Como, senhor?
– Nada, não. A novela acabou, então? A minha novela, não a da Globo, que fique claro.
– Agora o senhor deverá estar entrando em contato com o setor técnico para desconexão.
– Ah, entendo... e qual setor poderá estar me dando um tiro, por gentileza?



Esta semana, no Guia Floripa (clique aqui), tem uma crônica muito especial sobre quem nos inspira (a nós homens, claro) os melhores sonhos durante o estágio REM do sono.

Escrito por Dogman às 07:42 [   ] [ Recomende este texto ]





MUNDANA

– Já vou indo. – Ele me diz, abotoando nervosamente a braguilha.
– Pode ficar se quiser.
– Não, não posso.
Levanto para levá-lo até a porta. Sinto a porra ainda quente me escorrer por entre as pernas. Visto o robe e esfrego uma coxa na outra enquanto caminho. O velho me estende uma nota.
– Toma aqui.
– Não tenho troco.
– Não faz mal, semana que vem eu desconto.
– Tá.
Ofereço o rosto para um beijo, mas ele não entende. Me dá apenas um tapinha nas costas enquanto roça sua enorme barriga na minha cintura. Desaparece no fim do corredor.
Fecho a porta, o telefone toca.
– Alô.
– Quem fala?
– Madre Teresa.
– Oi, gostosa!
– Vendeu as fotos?
– Vendi.
– Não acredito! Pros japoneses?
– É, e eles querem mais.
– De que tipo?
– Aquelas com a tua amiga, como é mesmo o nome?
– Marcinha.
– Isso mesmo.
– Me traz a grana hoje à noite que a gente combina.
– Só se tiver trepada.
– Nem pensar.
– Chupada.
– Não.
– Punhetinha.
– Fechado.
É o preço da eficiência. Desligo aliviada.
Corro para o banheiro, nua pelo apartamento. Talvez um bom banho me lave a alma. Deixo a água correr no ar e depois pelo corpo. Esqueço um pouco do mundo lá fora.
Ao desligar o chuveiro sinto frio, um arrepio que congela os ossos. Enxugo rápido cabeça, tronco e membros. Quando finalmente paro em frente ao espelho é que percebo as marcas dos dentes do velho nos meus peitos. Filho-da-puta! Peitos filhos de uma puta! Se pelo menos não fossem tão brancos. Procuro o pancake  na gaveta, disfarço o que posso.
Visto minha melhor roupa de passeio, faço uma maquiagem discreta, mas não fico satisfeita. Só nascendo de novo, então.

Saio pela garagem, atrasada, tentando me equilibrar no salto um tanto alto. Ela já me espera do outro lado da rua. O carro não é o mesmo, mas é maior e mais bonito que o da última vez. Sorri quando me vê.
– Oi.
– Quinze minutos atrasada.
– Desculpa... vamos lá?
– Sinceramente, hoje eu só queria companhia.
– Sem problemas.
Entro no carro e sinto seu perfume.
– Vamos ao cinema?
– Vamos.
Ela abre a bolsa, tira um maço de cigarros e uma nota de cem.
– Pega.
– Não precisa.
– É pelo tempo perdido.
Aceito a nota. Ela acende um cigarro, dá uma tragada longa. Solta a fumaça pela janela e atira o cigarro na calçada. Não entendo nada.
Guardo meu dinheiro, já com o carro em movimento. Passo suavemente a mão em seus joelhos, em sua coxas, em sua barriga. Levanto sua saia e invado o delicado vale entre suas pernas. Sinto sua umidade e seu calor.
– Hoje não, por favor.
– Tudo bem.
Sei que não iremos a nenhum cinema. Rodamos sem parar, durante quase uma hora, pela cidade cinzenta e vazia. O céu já vai escurecendo, então peço a ela que me deixe no endereço que mostro anotado em um guardanapo. Rimos juntas uma última vez.
Quando o carro pára, em frentre à casinha verde, me despeço com dois beijos, um no rosto, outro na boca. Ela fica de ligar na próxima semana, o que consinto com um movimento de cabeça. Não tenho amor nem dor, apenas a sensação do dever cumprido.

Entro pelo portãozinho enferrujado e toco a campainha. Ouço passos do lado de dentro. Ele abre a porta, de pijama, um pouco despenteado, cara de sono.
– Oi, mulher!
– Não sou mais sua mulher, esqueceu?
– Pra mim é como se fosse.
– As crianças?
– Na escola.
Abro minha bolsa e tiro o bolo de notas, que nem tive tempo de contar.
– Vim trazer o dinheiro.
– Ainda tem do mês passado.
– Não faz mal, compra alguma coisa pra você.
– Quer entrar? Acabei de passar um café.
– Não, tenho que ir.
– Tá.
Viro as costas e saio apressada pela rua sem calçamento. Noto um fio puxado na meia fina. Merda! Ajeito a calcinha que vai entrando na bunda. Chamo um táxi e relaxo um pouco. Tento lembrar de cabeça o número do telefone da minha amiga Marcinha.



Hoje resolvi fazer o contrário, o texto do Guia Floripa (clique aqui) é antigo e este do blog é que é inédito. Em vez de crônica é um conto, que eu cometi um dia desses.

Escrito por Dogman às 07:59 [   ] [ Recomende este texto ]





QUIZ MUSICAL

Não se faz mais música boa como antigamente. E o que é pior: nunca se fez tanta música ruim como hoje em dia. Cantores e cantoras sem o mínimo talento entram e saem da parada com a mesma facilidade com que são esquecidos pelo público logo em seguida. Grupelhos (de emos, de pagodeiros, de jamaicanos, de paraenses, de donas de casa) abundam nas rádios e desaparecem antes que alguém consiga soletrar "pindamonhangabense".

Mas apesar da efemeridade da música moderna, pode surgir, numa roda de amigos, uma conversa sobre o panorama artístico atual, já pensou? E é nesse momento que você não vai querer passar por ignorante, sem conhecer (ao menos de nome) os artistas do momento, ainda que se transformem em ilustres desconhecidos em poucos meses.

John Legend? Amy Winehouse? Snow Patrol? Zezé Menotti e Marrone? Misericórdia, quem é essa gente? Faça o teste e veja como andam seus irrelevantes conhecimentos musicais.


01. Cantora americana por quem este blogueiro tem particular implicância:

a) Alicia Keys
b) Alicia Recusous
c) Alicia Vaipensars

02. Cantor brasileiro afrescalhado que imita o Djavan descaradamente:

a) Jorge Vercilo
b) Jorge Verpálpeba
c) Jorge Vermeninadosolos

03. Rapper que se acha o último quadradinho de chocolate meio amargo por trás da película Insulfilm em noite sem lua, famoso por espancar pacificamente seus inimigos até espirrar miolo na parede:

a) 50' Cent
b) 50' Levant
c) 50' Finjdemorto


04. Grupo de desocupados que nunca ouviu um samba de verdade:

a) Inimigos da HP
b) Inimigos da Música
c) Todas as anteriores

05. Espécie de Preta Gil americana, só que magra, loira e milionária:

a) Paris Hilton
b) Londres Carlton
c) Brasília Derby

06. Cantora da nova geração que, por não cantar nada, faz muito sucesso:

a) Rihanna
b) Gargalhanna
c) Semijatodhanna

07. Cantora baiana esquecida pela mídia, vencedora do Grammy  latino:

a) Daniela Mercury
b) Daniela Mertiolaty
c) Assopra, assopra!!!


08. Metaleiros ingleses veteranos, tocaram recentemente no Brasil:

a) Iron Maiden
b) São Silvestren
c) Maratona de Nova Yorken

09. Provavelmente a pior banda gaúcha da história da música mundial:

a) Papas da Língua
b) Tatuzinhos do Nariz
c) Pregas do Cu

10. Dubladora americana famosa por andar sem calcinha para disfarçar a celulite:

a) Britney Spears
b) Britney Toss
c) Benegrip!!!


Respostas: Na próxima edição, de cabeça pra baixo, no cantinho, em letras miúdas.
Fotos: P. Quevedo (03. Jards Macalé) e Zibia Gasparetto (07. Freddy Krueger)



Alguém imagina do que são capazes as pessoas que vêem muita televisão e lêem muito Nelson Rodrigues ao mesmo tempo? São capazes de cometer uma crônica que nem a minha de hoje (clique aqui) no Guia Floripa. Por favor, não se assustem.

Escrito por Dogman às 08:01 [   ] [ Recomende este texto ]





CHEGA DE MÁGOA

Em maio de 1985, um time estelar da música popular brasileira se reuniu para cantar em prol das vítimas da seca no Nordeste. O encontro deu origem ao compacto "Nordeste Já", uma espécia de We Are The World  tupiniquim, vendido na ocasião pela Caixa Econômica Federal, com renda destinada a ajudar aquela região que, até hoje, vinte e três anos depois, continua penando pela falta d'água. Pelo menos a intenção era boa...

Eu comprei o disquinho na época e ainda o tenho guardado. A música de trabalho, Chega de Mágoa, foi composta pelo Gil (música) e pelo Milton Nascimento (letra), mas como todo os envolvidos deram pitaco, acabou como uma "criação coletiva". Recentemente, devido às comemorações do Dia Mundial da Água (22 de março), voltei a ouvi-la com uma certa freqüência, inclusive na voz das crianças da escolinha do bairro.

O vídeo está no You Tube e, apesar da imagem desbotada, dá pra se ter uma idéia do que significou a inesperada reunião dos maiores nomes da nossa música, ainda que a campanha tenha fracassado. Reparem na Zizi Possi bem novinha, na Amelinha, na participação dos falecidos Gonzaguinha, Nara Leão e Tim Maia. Este último, com seu vozeirão, fez o papel equivalente ao do Bruce Springsteen no projeto americano.



Participaram das gravações (em ordem alfabética): Aizik, Alceu, Alceu Valença, Alcione, Alves, Amelinha, Antônio Carlos, Aquiles, Baby do Brasil, Bebeto, Belchior, Beth Carvalho, Bussler, Caetano Veloso, Camarão, Carlinhos Vergueiro, Carlão, Celso Fonseca, Charlot, Chico Buarque, Cláudio Nucci, Cristina, Cristóvão Bastos, Dadi, Daltro de Almeida, Dinorah, Dorinha Tapajós, Dori Caymmi, Djavan, Ednardo, Edu, Edu Lobo, Eduardo Dusek, Elba Ramalho, Elifas Andrato, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Emilinha Borba, Eunydice, Erasmo Carlos, Fafá de Belém, Faini, Fátima Guedes, Fernando Brant, Gal Costa, George Israel, Geraldo Azevedo, Gereba, Gilberto Gil, Golden Boys, Gonzaguinha, Guilherme Arantes, Ivan Lins, Jamil, Jacques Morelembaum, Joanna, João Mário Linhares, João do Vale, José Luiz, Joyce, Kleiton, Kledir, Kid Vinil, Lana, Leoni, Léo Jaime, Lúcio Alves, Luiz Avellar, Luiz Carlos, Luiz Carlos da Vila, Luiz Duarte, Luiz Melodia, Luiz Gonzaga, Lulu Santos, Magro, Malard, Manassés, Maria Bethânia, Marina Lima, Marlene, Marçal, Maurício Tapajós, Mauro Duarte, Marco Mazzola, Miguel Denilson, Mirabô, Miltinho, Milton Banana, Milton Nascimento, Milton Araújo, Miucha, Moraes Moreira, Nara Leão, Olívia Byington, Olívia Hime, O Quarteto, Paulinho da Viola, Patativa do Assaré, Paula Toller, Pareschi, Penteado, Perrotta, Perrotão, Pepeu Gomes, Raimundo Fagner, Rafael Rabello, Reinaldo Arias, Ricardo Magno, Rita Lee, Roberto de Carvalho, Roberto Carlos, Roberto Ribeiro, Roberto Teixeira, Rosane Guedes, Roger, Rosemary, Ruy Faria, Sandra de Sá, Sérgio Ricardo, Simone, Silvio Cezar, Sueli Costa, Stephani, Tânia Alves, Tavito, Teo Lima, Telma, Telma Costa, Terezinha de Jesus, Tim Maia, Tom Jobim, Tunai, Verônica Sabino, Vilma Nascimento, Virgílio, Yura, Wagner Tiso, Walter, Zenilda, Zé da Flauta, Zé Ramalho, Zé Renato e Zizi Possi.



O Anacrônicas de hoje (clique aqui) não está dos melhores, mas conto com a visitação
de vocês, pois é da coluna do Guia Floripa que tenho tirado o meu sustento.


Escrito por Dogman às 07:49 [   ] [ Recomende este texto ]





VALE A PENA LER DE NOVO

Em não tendo coisa mais interessante para encher lingüiça, fui buscar, nos anais do blog, os meus três posts prediletos de todos os tempos. É que tem gente que leu e não lembra. E também tem gente que não me acompanha desde 2004 ou que não tem paciência de fuçar nos arquivos anteriores para ver o que de menos pior já foi publicado por aqui. Não que eu seja coveiro de ofício, mas desenterrar o passado é comigo mesmo.

Escarromancia
Um conhecido meu, cujo nome será preservado por motivos óbvios, ao cruzar a Praça XV de Novembro, foi abordado por uma cigana. Com carregado sotaque paraguaio, exalando discreto bafo de cachaça, a mulher pediu-lhe uma nota de dez reais, justificando que em papel-moeda a sorte se apresentava mais claramente, e que ela não ficaria com o dinheiro, apenas o usaria como instrumento de trabalho. O cabeçudo, atualmente numa crise profissional e amorosa, abriu a carteira e ofereceu a "arara" para o sacrifício. A velha zíngara (e bota velha nisso) puxou o ar e, num frêmito expectorante, rosnando alto, cuspiu na nota novinha, recentemente saída do caixa eletrônico. Com a ponta dos dedos, remexeu o catarro disforme e volumoso, até desenhar uma rosa-dos-ventos, uma estrela-de-davi ou um mapa do Brasil, não vem ao caso. Durante cinco minutos a enrugada cigana falou do passado e do futuro desse meu conhecido, sem que ele prestasse a mínima atenção a nenhuma palavra, devido a um embrulho no estômago, seguido de leve tontura. Chegado o fim da consulta, a escatológica senhora devolveu-lhe o dinheiro, como havia prometido. Ele segurou o papel-moeda, agora úmido e fedorento, por uma das pontas e seguiu atordoado, cambaleando pelo interior da praça. Ao longe, pouco antes de vomitar no canteiro de amores-perfeitos, ainda ouvia a voz esganiçada da matusalênica cigana, que lhe dizia impropérios e rogava pragas num idioma muuuuito suspeito.

Da Superficialidade das Relações
Fazia algum tempo que não se encontravam. Ela tirou a blusa, ficou só de sutiã e saia. Depois descalçou os sapatos, tão lentamente que ele quase se ajoelhou para arrancá-los. Tinha um anel (de prata, com motivos tribais) no dedo médio do pé esquerdo.
– Que merda é essa?
– Um anel, nunca viu?
– Assim no pé, só em papagaio.
– Eu não acredito que tu nunca viu, tá se usando direto.
– Põe uma meia minha... só o pé esquerdo, eu te empresto.
Ela o olhou fixamente, durante uns trinta segundos ou menos. Calçou de volta os sapatos, no mesmo ritmo com que os havia tirado. Vestiu a blusa, ajeitou o cabelo, puxou um cigarro da bolsa. Ele abriu a porta, de súbito, apontando o corredor com um movimento de cabeça.
– Fuma lá fora, me faz o favor.

Da Falta de Atenção nos Condomínios
Quase todos os dias, há mais de dois anos, pego o elevador com a vizinha do 801. Sempre na mesma hora, pouco antes das oito da manhã, eu seguro a porta e ela vem correndo, atrasada, lá do fim do corredor. Na primeira vez ela agradeceu, sorriu e disse um "bom-dia, vizinho" encantador. Na segunda vez, quando eu me preparava para retribuir o cumprimento do dia anterior, ela entrou direto, sem dizer palavra, e fez a viagem até a portaria ajeitando o penteado no espelho. Virou rotina: num dia sorria e falava comigo; no outro me ignorava e seguia muda. Durante esses dois anos e pouco me acostumei com seus altos e baixos, com sua dupla personalidade, com suas alterações de humor. Quando nossos horários não coincidiam eu sentia falta de sua companhia no elevador, já não me importava se era dia de cordialidade ou de carranca. Hoje cedo, tal qual uma trama de Conan Doyle, o mistério da vizinha do 801 se esclareceu. Enquanto eu segurava a porta ela veio correndo, atrasada. Logo atrás, gritando: "peraí que eu vou também", uma outra, igualzinha, veio rápido, mais atrasada ainda. As gêmeas entraram no elevador, ofegantes. Uma falou comigo; a outra não.



Hoje no Guia Floripa (clique aqui) o assunto é a farra-do-boi. Como todos sabem, não se deve discutir com ignorantes, portanto, a minha tática é desqualificar e esculhambar os debilóides que participam dessa inclassificável palhaçada. Em vez de maltratar o pobre animal, deviam primeiro se preocupar em tirar a mãe da zona.

Escrito por Dogman às 07:50 [   ] [ Recomende este texto ]





Para me redimir da semana passada, quando fui tachado (no blog) de mal-amado, porco chauvinista, machista, racista e (por e-mail) de mais uns tantos adjetivos carinhosos, pensei em fazer também uma lista dos homens mais brochantes da atualidade. O problema é que, na minha modesta opinião, todos os homens são brochantes, menos o Chico Buarque e eu mesmo, claro. Então, por mais que puxasse pela memória e tentasse fazer um apanhado dos caras que denigrem a imagem do sexo masculino (tipo Justin Timberlake, Belo, Chorão, Paulo Ricardo e outros), não reuni argumentos suficientes para elaborar um post satisfatório. Seria uma "forçação" de barra escrever sobre um tema do qual não manjo nada e nem pretendo me aprofundar. Portanto, ainda inspirado pela repercussão do que publiquei na última terça-feira (sem perder a linha de raciocínio), informo, com pesar, que não vai haver redenção tão cedo, muito pelo contrário, me diverte demais classificar os seres humanos de acordo com os meus padrões e é isso que vou fazer hoje de novo.


MAD ABOUT YOU

Mulheres não gostam que as chamemos de loucas, é fato. Elas aturam um "gorda", um "relaxada", um "ciumenta", um "barbeira", um "perua", qualquer coisa, menos um "louca". Ficam possessas, esquizofrênicas, perdem as estribeiras. O problema (ao menos para nós, homens descompromissados) é que as mulheres, de forma geral, são mesmo loucas. O que muda é o grau de periculosidade que nos oferecem.

Não é para me gabar, não, mas nos últimos dois anos não foram poucas as mulheres que passaram pela minha vida. Todas elas, cada uma a seu modo, completamente destrambelhadas. Ou seja, existem diferentes espécies de loucas no cotidiano de um homem. E basta observá-las com um mínimo de sensibilidade para perceber sutis diferenças de comportamento entre as diversas variedades.

Assim, após meses de íntimas e incansáveis pesquisas, estabeleci minha própria classificação dos sete tipos de loucas mais recorrentes no meu dia-a-dia. São mulheres, cuja convivência (em casa, no trabalho, na noite, na escada de incêndio, no elevador pifado), apesar de alguma insanidade, nos atrai inexplicavelmente; ou, constatada a falta de um parafuso, nos põe para correr, como um diabo a fugir da cruz do despirocamento crônico.

LOUCA CAPILOTON - Dentre as malucas, é a mais inofensiva. Caracteriza-se pela queda de cabelo excessiva. Por onde passa, onde deita, onde senta, deixa um rastro de fios perdidos. Entope os ralos da pia e do chuveiro, além de produzir massarocas em pentes e escovas. Normalmente, tem o cacoete de jogar a cabeça de um lado para outro, o que resulta em mais resquícios capilares caídos nos próprios ombros, no chão e (o que é pior) na comida. Sua demência não é explícita, porém, facilmente deduzível: se tantos fios de cabelo a abandonam diariamente, algum desajuste cerebral ela deve ter.

LOUCA DUAS CARAS - É aquela que só se mostra desequilibrada na sua frente, mais ou menos como um barulhinho no carro que desaparece justamente na hora em que o mecânico está por perto. Seus parentes e amigos a adoram e sempre perguntam quando vai ser o casamento, mas você é que sabe o quanto ela pode mudar de fisionomia, de humor e de comportamento entre quatro paredes. Recomenda-se dormir de olhos abertos a partir do momento em que o gato cair acidentalmente da janela ou quando as fotos das suas ex-namoradas (incluindo a do jardim de infância) aparecerem picotadas.

LOUCA KATHY BATES - Quase como no filme Louca Obsessão, a tantã em questão tenta atraí-lo para os seus domínios com promessas de um jantarzinho romântico, de um vinho importado e de uma massagem tailandesa com final feliz. No entanto, basta um momento de desatenção para ela trancar a porta e jogar a chave pela janela, alegando que você é responsável por "aquilo" que cativa. Nesse caso, logo que avistar um exemplar de O Pequeno Príncipe na estante, e se tiver certeza absoluta de que não se trata de uma ex-miss, peça para usar o banheiro e chame imediatamente o número 190 pelo celular.

LOUCA MIZIFIA - Nada mais é do que uma mulher insegura querendo "amarrar" seu homem. Freqüenta terreiro de macumba, anda com patuá no pescoço e, de vez em quando, sai de casa tarde da noite levando um pacote de pipocas de microondas, uma foto três por quatro e uma de suas cuecas (usada, de preferência). É fácil perceber a presença de uma tapada dessas em qualquer ambiente, pois as plantas murcham e seus rins começam a dar fisgadas semelhantes às de uma cólica menstrual. Para dar prosseguimento ao relacionamento, lembre-se sempre de comprar suas camisinhas na farmácia da encruzilhada.

LOUCA NINJA - A verdadeira doida varrida ou doida de pedra. Escala paredes, abre fechaduras com grampo de cabelo, suborna porteiros e vizinhos, e ainda fica de tocaia esperando você sair ou chegar do trabalho. Tudo para chamar sua atenção, já que é destituída dos atrativos físicos e intelectuais das pessoas normais. Mantenha a calma se receber algum embrulho sem remetente que faça sons estranhos (tiquetaque, por exemplo) e dê graças ao Senhor se, na manhã seguinte, você apenas acordar com os testículos colados com Super Bonder à parte interna das coxas.

LOUCA SHERLOCK HOLMES - É aquela que vive investigando sua vida em busca de provas de infidelidade, mesmo que o namoro tenha acabado de começar. Sempre que você vira as costas ela vasculha suas gavetas, fuça nos seus bolsos e folheia sua agenda. Quando você vai para o banho ela aproveita para verificar as últimas ligações do seu celular e, quando você está no computador, fica tentando, como quem não quer nada, ler seus e-mails por cima dos ombros. As neuróticas desse naipe ficam grisalhas muito cedo, costumam fumar para aliviar as tensões e tendem a envelhecer num sanatório.

LOUCA VIDENTE - Dentre todas as merecedoras de camisa-de-força, é a mais difícil de lidar. Dona de um ciúme incomum, acaba enlouquecendo também o próprio parceiro com sua paranóia. Não dorme sobre a mesma roupa de cama em que outras mulheres dormiram, exige que você compre novas louças e talheres e o proíbe de ouvir seus discos antigos, pois determinadas canções podem fazê-lo lembrar de algum romance do passado. De olfato apurado e um sexto sentido mediúnico, parece adivinhar sempre que você pega o elevador com a vizinha ou passa uma cantada inocente nas leitoras dos seus textos.



Pela primeira vez o blog e o Guia Floripa (clique aqui) recebem, simultaneamente, o mesmo texto. Escrevi originalmente (durante o dia internacional da mulher) para publicar aqui, mas achei injusto privar os leitores de lá de também se divertirem com essas merdas que eu invento. A diferença é que os dogmaníacos de longa data ganham uma justificativa, digo, um parágrafo a mais. E espero que gostem tanto de ler quanto eu gostei de escrever.

Escrito por Dogman às 06:55 [   ] [ Recomende este texto ]



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